LE002

RECREAÇÃO FILOSOFICA,

OU DIALOGO

Sobre a Filosofia Natural, para instrucção

de pessoas curiosas, que não

frequentárão as aulas


 P. Theodoro D´Almeida 


 1786-1805



Especificação

Autor: P. Theodoro D´Almeida

 

Gravador: Heris set; L. S. C.; Carp. F. 1761; D. J. Silva

 

Antigo possuidor: A. Campos

 

Edição: Tomos I, II, V, VI, VIII, IX e X - 5a. ed.

             Tomos III, IV e VII - 6a. ed.

 

Publicação: Lisboa, na Regia Officina Typografica

 

Descr. Física: Tomos I ao X de 10

                       10 t. em 10 vols.

                       16mo - 17x11 cm

 

Idioma: Português

 

Paginação: TI  2 f.b. + 36 p.n.n. + 368 p. + 1 f. est. (front) + 5 f. est. desdob. + 2 f.b.

                   TII 3 f.b. + 6 p.n.n. + 454 p. + 1 f.b. + 4 f. est. desdob. + 2 f.b.

                   TIII 3 f.b. + 6 p.n.n. + 396 p. + 2 f.b. + 4 f. est. desdob. + 2 f.b.

                   TIV 3 f.b. + 6 p.n.n. + 325 p. + 1 f.b. + 5 f. est. desdob. + 2 f.b.

                   TV 3 f.b. + 6 p.n.n. + 414 p. + 1 f.b. + 5 f. est. desdob. + 2 f.b.

                   TVI 2 f.b. + 8 p.n.n. + 504 p. + 5 f. est. desdob. + 2 f.b.

                   TVII 2 f.b. + 12 p.n.n. + 478 p. + 2 f.b.

                   TVIII 2 f.b. + 8 p.n.n. + 312 p. + 2 f.b.

                   TXIX 2 f.b. + 20 p.n.n + 403 p. + 2 f.b.

                   TX 2 f.b. + 16 p.n.n. + 444 p. + 8 p.n.n. + 2 f.b.

 

Conservação: Muito bom, alguns poucos picos de insetos que raramente afetam o texto. Atingem em sua maioria a encadernação em couro da tapas e lombadas, tapas presentes mas algumas parcialmente soltas. Possui carimbo na folha de guarda (branca) de cada tomo "A. Campos propagandista catholico S. Paulo".

 

Encadernação: Enc. da época inteira em couro marron claro, lombada gravada em dourado.

 

Ilustração: 1 front. c/ grav. do autor;, 28 est. desdobráveis e algumas vinhetas.

 

Valor: sob consulta

 

Ref. Ext.: Innocencio 7, 301

                Biblio. Lusit. 3, 339

 

Notas: Anterostos nos t. VII ao X

           Por baixo do pé de imprensa: Tomo I "Com licença da Real Meza Censoria, e Privilegio real";

                                                          Tomo VI "Com licença".

                                                          Tomos II, VIII e XIX "Com licença da Real Meza da Commissão Geral sobre o                                                                                           Exame, e Censura dos Livros, e Privilegio Real";       

                                                          Tomos III, IV, V, VII e X "Com licença da Meza do Desembargo do Paço e                                                                                                       Privilegio Real";

            F. de front. com grav. do Autor "Theodorus de Almeida congreg. oratorii olys. natus die VII jan. an.                       MDCCXXII. obit die XVII april an. MDCCCIV" assin. D. J. Silva fec.

            F. est. desdob. assin. "Heris set. sculp."; L. S. C. sc."; "Carp. esc. lxa."; "Carp. f. lxa. 1761"

            Pert. carim. na 2a. f.b. "A. Campos propagandista catholic S. Paulo".

                                                      

 

 

SOBRE O AUTOR

 

                           Presbítero da Congregação do Oratório de Lisboa, Sócio fundador da Academia Real das Ciências de Lisboa, Membro da Sociedade Real de Londres, e da de Biscaia, etc. Nasceu em Lisboa em 7 de Janeiro de 1722, sendo filho de Ivo Francisco de Almeida (a quem alguns biógrafos chamaram equivocadamente José), e de Luisa Maria.

 

Aos treze anos de idade entrou na congregação do Oratório, onde estudou o curso de humanidades, a geometria, e a física, tendo nesta por mestre o P. João Baptista, o primeiro que nesta corte ditou a filosofia moderna ou experimental, até então de todo ignorada. Repartindo a sua aplicação entre o estudo das ciências próprias do estado eclesiástico, e o das naturais, fez nestas notáveis progressos, de sorte que aos vinte e quatro anos de idade foi nomeado substituto da cadeira de filosofia na sua congregação; e aos vinte e nove já era mestre efetivo, publicando por esse tempo o primeiro tomo da sua Recreação Filosófica.

 

Não menos assíduo no ministério evangélico, era ouvido com atenção e respeito no púlpito, e buscado de muitas pessoas que o tomavam por seu diretor espiritual, contando-se entre elas algumas senhoras da mais alta nobreza. Desconfianças bem ou mal fundadas lhe atraíram e á maior parte dos seus confrades na congregação o ódio do primeiro ministro, depois Marquez de Pombal; pouco faltou para que os filhos de S. Filippe Neri sofressem uma proscrição total, semelhante á dos jesuítas, apesar da rivalidade que reinava entre as duas corporações.

 

Em 20 de Junho de 1760 foram por ordem do ministro desterrados da corte alguns fidalgos, e com eles os padres oratorianos Theodoro de Almeida, João Baptista, João Chevalier e Clemente Alexandrino. (vej a Hist. de Portugal traduzida por Moraes e Silva no tomo IV da edição de 1802, a pag. 53). Mais tarde, segundo se diz, em Setembro de 1768, o P. Theodoro estando de residência na casa do Porto, teve de refugiar-se em França, e aí demorou-se perto de dez anos, empregando-se no ensino particular das ciências físicas e matemáticas, primeiro em Bayona e depois em Auch. Ainda que com a morte d'el-rei D. José e queda do ministro em Fevereiro de 1777, parece que devia cessar o seu desterro, e serem-lhe abertas as portas da pátria, com tudo só voltou a ela em Março de 1778. Foi então residir para a casa de N. S. das Necessidades, e retomou os seus antigos exercícios do magistério, do púlpito e do confessionário, tratando ao mesmo tempo de polir e aperfeiçoar as suas obras antigas, e de publicar de novo outras que compusera, das quais irá em seguida a resenha competente.

 

Reedificada que foi à casa do Espírito Santo, que o terremoto destruíra de todo em 1755, para aí passou em Outubro de 1792, prosseguindo nas mesmas ocupações, até que sendo atacado de paralisia em 10 de Abril de 1804, passou para a eternidade a 18 do dito mês, tendo vivido oitenta e dois anos e alguns meses. Foi, pelo testemunho dos seus contemporâneos, homem de costumes puros, e de comportamento exemplar: incansável no estudo, pacificador de discórdias, e caritativo em sumo grau para com o seu próximo.

 

 

SOBRE A OBRA

 

                           Sua principal obra, a Recreacção Filosófica, o veremos sublinhar com insistência esta mesma aliança, proclamando, como S. Paulo que o Universo é um «espelho» onde reverberam os divinos atributos, assumindo o termo "especulação" o sentido muito preciso de processo que abarca e projeta o mundo visível enquanto este participa do invisível, sendo portanto uma leitura da verdade por meio de um espelho, na base da mediação de semelhanças.

 

É pois no respeito por esta tradição especulativa que devemos compreender a atitude agora apresentada pelos modernos, num novo contexto assinalado pelo apogeu da física matemática, continuando a perceber o sentido divino das realidades visíveis, num processo que muito aproxima estes autores do pujante movimento dos virtuosos em Inglaterra, onde militaram os grandes vultos do naturalismo europeu dos séculos XVII e XVIII.

 

A partir deste pressuposto, o Oratoriano elabora uma longa exposição, em dez volumes e em forma de diálogo, como convinha ao pedagogismo da época, acerca da natureza, da estrutura e conteúdo destas provas naturais da existência de Deus e do respectivo suporte racional, partindo daí, nos dois últimos volumes, para uma incursão nos domínios da moral e do direito natural, contra o materialismo e o deísmo, como possibilidades diversas de um naturalismo que rejeitou.

 

Para Teodoro de Almeida, «a natureza não fala nem tem ciência» no sentido preciso de recusa do imanentismo ou do panteísmo. Encarada na sua pura materialidade, «a natureza é muda», mas vista à luz da sua dependência perante um absoluto que a criou, transforma-se num livro aberto e pleno de significado espiritual, estabelecendo uma relação "secundum originem", que abarca no seu significado mais amplo a ordem particular das criaturas, nas suas relações de lugar, tempo e dignidade.

 

No seu espírito, a criação e a conservação do universo por Deus, ao mesmo tempo em que imprimem à natureza a marca de uma dependência, põem em destaque a sua própria dignificação, na medida em que revelam as modalidades da presença de Deus nas criaturas, como modos finitos de uma perfeição infinita, na qual a essência da perfeição pertence a Deus, possuindo-as as criaturas por participação. Criação e conservação, ou «criação continuada», asseguram a permanência na existência dos entes naturais, sendo Deus o criador do ser das criaturas e o conservador ativo das suas existências e, portanto, também causa eficiente suprema de todo o devir.

 

Em todo o caso, a ação divina na natureza criada exerce-se através das causas segundas que consubstanciam, não obstante, uma verdadeira legalidade e uma verdadeira atividade que a razão e a ciência se esforçam por determinar, à luz das suas metodologias específicas, podendo embora Deus agir milagrosamente, interrompendo o curso ordinário das causas segundas, como sucedeu com o terremoto de Lisboa, ao qual dedicou o poema Lisboa Destruída, em oposição às teses de Voltaire e de Alexander Pope.

 

Repare-se pois no tão significativo passo da Recreação Filosófica em que formula sinteticamente a sua posição teórica:

 

«Cheval.: -- Dizei-me Theodósio que hei-de eu entender por esta palavra natureza? Toda a minha vida ouvi esta bela palavra que vem a cada passo nos livros modernos, e ninguém me disse jamais o que era a natureza.

 

Theod.: -- Natureza, meu Chevaier, não é outra coisa que a Mão de Deus (....). Eu chamo natureza a esta série continuada e costumada de movimentos em tudo o que é visível (...) Esta série tão constante de movimentos no céu e na terra e tão belamente ordenada, sendo, ao mesmo tempo, tão vária e complicada, pede uma grande inteligência e um grande poder. Ora, a essa inteligência chamo eu Deus» .

 

Quer isto dizer que em ser a Mão de Deus, se entende que é Ele que «obra imediatamente esses efeitos, segundo a lei ou costume que ele pôs».

 

Todavia, ao dizer que Deus obra «imediatamente», está no fundo a apelar a um antigo preceito da escolástica, pois que a ação de Deus e a ação das criaturas, sendo ações distintas, não representam fases independentes: a totalidade do efeito depende da causa primeira e da causa segunda, mas sem que possa dizer-se que há uma parte do efeito que é devida à ação de uma e uma parte que se deve atribuir à ação de outra.

 

Definida nestes termos a relação entre natureza e Deus, faltava equacionar a presença do homem, a respeito do qual proferiu uma frase quase profética e cujo pleno significado caberia ao nosso tempo desvendar: «Tudo, meu Chevalier, está tão bem feito pela mão do Supremo Artífice que qualquer coisa que os homens emendassem se pudessem, lhes traria incômodos infinitos e talvez a ruína total».

 

Outro aspecto interessante radica no seu ataque ao deísmo, sobretudo ao argumento de Voltaire de que a noção de providência, ou o cuidado que Deus dispensa às criaturas, era indigna da sua grandiosidade. Entende a respeito o Oratoriano que a questão está mal formulada, pois Deus é infinito e o cuidado que o infinito tem do finito não é equacionável à luz das categorias da nossa razão finita: «Costuma o vulgo atribuir a Deus todos os defeitos que achamos na natureza dos homens, cuidamos que ele também se há-de cansar em obrar em muitos lugares ao mesmo tempo». Deus não é determinado pelos limites de qualquer essência, a sua infinidade e imensidade situam-no para lá de toda a medida, sendo pois ubíquo e onipresente.

 

Também a crítica ao materialismo surge evidente na sua obra, contra os excessos do cientismo que terminavam numa excessiva naturalização do homem, como no L'Homme Plante de La Mettrie. Para Teodoro de Almeida, como aliás para Buffon, existe uma distância infinita entre o mais inteligente dos animais e o mais estúpido dos homens, sendo manifestação de superficialidade intelectual querer aproximar as essências de uns e outros, para lá de simples analogias orgânicas.

 

Não menos relevante são as suas considerações no domínio da estética, evoluindo dos padrões universalistas e geometrizantes dos neoclássicos para o gosto romântico de uma natureza que segue livremente o seu curso com horror à linha direita. Do ponto de vista filosófico esta questão prolonga-se na distinção entre os sentimentos do belo e do sublime tal como fora postulada por Burke e Kant, vindo a expressar-se no debate sobre o gosto dos jardins, nomeadamente do gosto dos jardins ingleses de que Teodoro de Almeida foi partidário, aspecto que o coloca como precursor do gosto romântico.

 

Não ha muitos anos que se fez dela uma nova edição completa; e os exemplares das antigas, que muitas vezes aparecem no mercado, acham prontos compradores; principalmente os dos tomos VII, VIII, IX e X, quando se encontram á venda separados; pois servem aos curiosos para completar as coleções dos seis primeiros tomos.