O Feliz

Independente do Mundo

e da Fortuna

 

P. Theodoro D´Almeida

 

 1786



Especificação

Autor: P. Theodoro D´Almeida


Antigo Possuidor: Francisco de Paula Leitão Ferreira de Figueiredo


Escultor: Frois


Gravador: Frois


Publicação: Lisboa, na Offic. de Antonio Rodrigues Galhardo

 

Edição: 2ª. ed. - 1786


Descr. Física: Tomo III de 3

                       12mo. - 17x11.5x3 cm


Idioma: Português


Paginação: 1 f.g. + 4 p.n.n. + 346 p. + 1 f.b. + 1 f.g. + 8 f. est.


Conservação: Muito bom; f.b. leve mancha de umidade na borda superior; enc. necessita restauro.


Encadernação: Enc. da época inteira em couro marrom claro marmorizado, lombada gravada em dourado.


Ilustração: 8 f. est. algumas vinhetas, tarjas e capitulares.


Valor: R$1.000,00


Ref. Ext.: Innocencio 7, 301

                Biblio. Lusit. 3, 339


Notas: Tomo III somente de 3

            Anterosto

            Pert. ms. ligeiramente apagado no anterosto "He de Francisco de Paula Leitão Ferreira de Figueiredo"

            Por baixo do pé de imprensa: "Com licença da Real Meza, e Privilegio Real"

            Na p. de tít., peq. grav. xilogr. "figura humana sentada em um leão".

            F. est. assin.: Frois inv. sc.

            F. est. num.: XVII a XXIV

            Ao alto da p. 1, vinheta representando Messeno e o Emnaixador em cárcere numa tenebrosa masmorra.

     

 

SOBRE O AUTOR

 

                            Presbítero da Congregação do Oratório de Lisboa, Sócio fundador da Academia Real das Ciências de Lisboa, Membro da Sociedade Real de Londres, e da de Biscaia, etc. Nasceu em Lisboa em 7 de Janeiro de 1722, sendo filho de Ivo Francisco de Almeida (a quem alguns biógrafos chamaram equivocadamente José), e de Luisa Maria.

 

Aos treze anos de idade entrou na congregação do Oratório, onde estudou o curso de humanidades, a geometria, e a física, tendo nesta por mestre o P. João Baptista, o primeiro que nesta corte ditou a filosofia moderna ou experimental, até então de todo ignorada. Repartindo a sua aplicação entre o estudo das ciências próprias do estado eclesiástico, e o das naturais, fez nestas notáveis progressos, de sorte que aos vinte e quatro anos de idade foi nomeado substituto da cadeira de filosofia na sua congregação; e aos vinte e nove já era mestre efetivo, publicando por esse tempo o primeiro tomo da sua Recreação Filosófica.

 

Não menos assíduo no ministério evangélico, era ouvido com atenção e respeito no púlpito, e buscado de muitas pessoas que o tomavam por seu diretor espiritual, contando-se entre elas algumas senhoras da mais alta nobreza. Desconfianças bem ou mal fundadas lhe atraíram e á maior parte dos seus confrades na congregação o ódio do primeiro ministro, depois Marquez de Pombal; pouco faltou para que os filhos de S. Filippe Neri sofressem uma proscrição total, semelhante á dos jesuítas, apesar da rivalidade que reinava entre as duas corporações.

 

Em 20 de Junho de 1760 foram por ordem do ministro desterrados da corte alguns fidalgos, e com eles os padres oratorianos Theodoro de Almeida, João Baptista, João Chevalier e Clemente Alexandrino. (vej a Hist. de Portugal traduzida por Moraes e Silva no tomo IV da edição de 1802, a pag. 53). Mais tarde, segundo se diz, em Setembro de 1768, o P. Theodoro estando de residência na casa do Porto, teve de refugiar-se em França, e aí demorou-se perto de dez anos, empregando-se no ensino particular das ciências físicas e matemáticas, primeiro em Bayona e depois em Auch. Ainda que com a morte d'el-rei D. José e queda do ministro em Fevereiro de 1777, parece que devia cessar o seu desterro, e serem-lhe abertas as portas da pátria, com tudo só voltou a ela em Março de 1778. Foi então residir para a casa de N. S. das Necessidades, e retomou os seus antigos exercícios do magistério, do púlpito e do confessionário, tratando ao mesmo tempo de polir e aperfeiçoar as suas obras antigas, e de publicar de novo outras que compusera, das quais irá em seguida a resenha competente.

 

Reedificada que foi à casa do Espírito Santo, que o terremoto destruíra de todo em 1755, para aí passou em Outubro de 1792, prosseguindo nas mesmas ocupações, até que sendo atacado de paralisia em 10 de Abril de 1804, passou para a eternidade a 18 do dito mês, tendo vivido oitenta e dois anos e alguns meses. Foi, pelo testemunho dos seus contemporâneos, homem de costumes puros, e de comportamento exemplar: incansável no estudo, pacificador de discórdias, e caritativo em sumo grau para com o seu próximo.

 

 

SOBRE A OBRA

 

                    Na correspondência que manteve com Ribeiro Sanches, enquanto viveu em França e esporadicamente na Sabóia, Teodoro Almeida [1722-1804] insistiu em explicar ao médico, que então habitava em Paris, como a redação de O Feliz Independente (1779) tinha contribuído decisiva- mente para melhorar os estados de «melancolia» que tantas vezes o assaltavam. Embora sublinhando que a obra tinha sido iniciada no Porto, quando, desterrado por Pombal, aí permanecera entre 1760 e 1768, a gestação da novela, que sempre apelidou de «poema épico em prosa», foi acompanhando os anos de exílio, não surpreendendo, assim, que chegado a Portugal em Março de 1778, a tenha feito publicar, depois de introduzidas alterações a que as diferentes censuras o foram obrigando, no imediato ano de 1779.

 

Antes de partir para o estrangeiro em 3 de Setembro de 1768, almejando chegar à Holanda como destino final, Teodoro de Almeida publicara, nos anos mais vizinhos dessa data, três obras de caráter devocional que, juntamente com o Elogio da Ilustríssima e Exmª D. Ana Xavier (1758), revelam uma crescente preocupação com temas de literatura de espiritualidade stricto sensu. Em 1759, faz publicar, em Lisboa, nos prelos de Miguel Rodrigues, Estímulos do amor da Virgem Maria, mãe de Deus, em 1763, no Porto (na Of. de Francisco Mendes de Lima), Gemidos da mai de Deus aflita, ou estímulos da compaixão das suas dores, sob o pseudônimo de Dorotheo de Almeida, em 1768 (Porto, Francisco Mendes de Lima), o Thesouro de Paciência nas chagas de Jesus Christo, ou consolação da alma atribulada na meditação das penas do Salvador. Estes textos de clara orientação mariana e cristológica, que mereceram aliás traduções em Espanha e França, embora em contextos e datas diversas, acompanharam a continuação da publicação dos quinto (Lisboa, Miguel Rodrigues, 1761), sexto (Lisboa, Miguel Rodrigues, 1762) e sétimo (Lisboa, Miguel Rodrigues, 1768) tomos da Recreação Filosófica, respectivamente dedicados aos «Brutos e às plantas» , «aos céus e ao mundo» e à «Lógica». A partir da data deste último tomo, 1768, e até ao momento da publicação de O Feliz Independente, 1779, Teodoro de Almeida interrompeu, pelo óbvio motivo da ausência do país, um processo bastante continuado de edição de obras a partir de 1751, embora a correspondência mantida ao longo desses anos, em que permaneceu em França, revele preocupações constantes com a publicação de traduções de alguns tomos da Recreação Filosófica. Essas mesmas cartas criam um fio de ligação entre a última das obras de devoção publicada no Porto, o Thesouro de Paciência, a que acima aludi, e O Feliz Independente, no sentido em que ambas equacionavam a possibilidade de resistência às mudanças da «Fortuna», procurando uma saída que «cristianizasse» as propostas de acento estóico – na senda de Sêneca (De constantia e De tranquillitate animi) e de uma larguíssima tradição que as doutrinas humanistas (e suas conseqüências) revalorizaram – e que, simultaneamente, servisse como alternativa às concepções de cariz epicurista, sobretudo às dos chamados «esprits forts», que cruzavam o século.

 

Na «Dedicatória» de O Feliz Independente, assumindo que a obra visava a transmissão de um ideal de felicidade baseado nas «máximas evangélicas», de molde a fazer repousar na «Divina Providência» inquietações quanto ao futuro, T. de Almeida sublinhava que tinha preparado «o mesmo remédio» oferecido no Thesouro de Paciência, disfarçando-o de outro modo – isto é, segundo uma diferente codificação discursiva –, procurando «a aparência de que todos geralmente gostam», na tentativa de «dar a beber disfarçado, sem que perdesse nada da sua intrínseca verdade, para que sentissem [os leitores] o efeito, atraídos da doçura que se lhes presenteava».

 

Se tivermos em conta que nas missivas redigidas enquanto exilado, Almeida faz remontar a data de início da relação de O Feliz Independente a 1767, justamente o ano anterior à sua algo precipitada saída do país, fugindo a uma alegada ordem de prisão de Sebastião José de Carvalho e Melo, e que o Thesouro foi editado justamente nesse ano de 1768, parece legítimo suspeitar, e até concluir, que a reflexão sobre a «Arte de viver contente em quaisquer trabalhos da vida» – que o título da «novela» também integrava – corporizasse um núcleo de preocupações, para além da moda temática, a que o oratoriano não deixava de ser sensível. Não importa neste pequeno trabalho, por já o ter feito em outros, desenvolver as questões relativas à felicidade como núcleo temático. Procurarei, sim, demonstrar que a leitura de O Feliz Independente não se esgota na exposição de um conceito de felicidade preso à confiança na «Divina Providência» e essencialmente tributário de formas de domínio das paixões, visando à tranqüilidade da alma, mas escolhe como moldura privilegiada para equacionar a questão, por razões que a seguir examinaremos, o enquadramento das relações de poder – exercício e legitimidade – fazendo do ambiente cortesão, e integrando, assim, um filão de larga fortuna sobretudo na Época Moderna, terreno privilegiado para fornecer pautas de comportamento perfeito, como se o seu texto pudesse funcionar, em termos de objetivo, como um «agradável» catecismo. Deste ponto de vista – e os para textos da «novela» parecem fornecer consistência ao argumento – O Feliz Independente não se afasta da matriz doutrinária e pedagógica que preside a toda a produção escrita de Teodoro de Almeida, tornando a «utilitas» um conceito fundamental no peso da relação prodesse/delectare. Face ao modelo da Recreação, a estratégia discursiva passa aqui por substituir Teodósio, o professor de Filosofia Moderna, por Vladislau/Misseno, mestre na arte de dominar paixões e vícios, Eugénio, o aluno, pelo conde da Morávia, com a importante ressalva de que Eugénio aprende com sucesso e o conde, depois de peripécias várias, acaba por não conseguir interiorizar a lição e, finalmente, Sílvio, o peripatético médico, oportuno e constante contraponto nas várias «Tardes» da Recreação e que, na «novela», pode ser subsumido em personagens várias, do filósofo maometano Ibraim, epicurista convicto, a Neucasis, exemplo do mau valido. Com efeito, T. de Almeida investe, como autor, na dimensão «atraente» dos textos, assumindo a herança «feneloniana» de que a «educação», seja ela do príncipe, das camadas dirigentes ou até da direção espiritual feminina, deve ser feita escolhendo as estratégias mais persuasivas da «vontade» e em função, obviamente, do objetivo visado. Encontrar o caminho para, através do exercício da razão dentro dos limites da incompreensibilidade dos desígnios divinos, forçar com doçura e suavidade a vontade dirigindo-a para o caminho do bem parece constituir a fórmula mágica, aliás, muito no sentido do «ar do tempo». Se os «esprits forts» usavam a razão para formular raciocínios que conduziam à não existência de Deus ou à falta de razoabilidade da Sagrada Escritura, porque não usar a mesma estratégia, caucionada embora pela não contestação da idéia de Deus que a natureza, pela sua organização, espelhava, para domar as vontades e ilustrar os entendimentos? Desse ponto de vista, toda a obra de T. de Almeida pode incorporar o filão de literatura apologética que, sobretudo na segunda metade do século, se desenvolveu em França e Itália, tanto quanto sabemos menos em Espanha, talvez porque menos necessária, contra Diderot, d’Alembert e, essencialmente, Voltaire e Rousseau.