Les

Émigrants

au Brésil

 

 Amélie Weise Schoppe

 

 1857



Especificação

Autor: Amélie Weise Schoppe


Tradutor: P. C. Gerard


Publicação: Rouen, Mégard et Cie.

 

Edição: 4ª. ed. ? - 1857


Descr. Física: 8vo. - 18.5x11.5x1.5 cm


Idioma: Francês


Paginação: 1 f.g. + 144 p. + 1 f.g. + 1 f.est.


Conservação: Muito bom; as f.g. e contracapas estão rabiscadas à lápis.


Encadernação: Enc. da época inteira em tela dourada, lombada e tapas gravadas a ferro


Ilustração: 1 frontispício, uma vinheta na p. de tít. e algumas tarjas.


Valor: R$350,00


Ref. Ext.: Borba de Moraes 738     


Notas: Anterosto

            Na p. de tít., pequena grav. xilogr. com monograma M. & Cie. (impressor)

            F. frontispício assin. pelo prórpio impressor contém: Les émigrants au Brésil.

     

 

SOBRE O AUTOR

 

                            Amelie Weise Schoppe nasceu em Fehmarn, uma ilha ao norte da Alemanha, no dia 09 de outubro de 1791. Com o pai, o Dr. Friedrich, foi iniciada na arte de curar, e, após a morte do “médico da cidade”, em 1798, mudou-se para Hamburg. Lá, instalou-se na casa de um tio acabando por abrir uma escola para meninas, em 1823, com uma educadora chamada Fanny Tarnow. Antes disso, Amelie cumpriu o destino das moças de seu tempo: casou-se com um jurista, teve três filhos e ficou viúva. Seu casamento não lhe trouxe muita felicidade. Após a morte do marido, passou a escrever livros com o objetivo de sustentar a família. Publicou, então, obras com lições de sabedoria e moral a fim de guiar as crianças na vida prática, além de colaborar para muitas revistas e editar jornais de moda na Alemanha e em Paris, dentre os quais se destaca a Revista Para Jovens Iduna. Suas obras somam mais de 200 títulos e, além do francês, algumas foram traduzidas para o inglês, o holandês e o tcheco. Em 1851, a escritora emigrou para os Estados Unidos onde faleceu no dia 25 de setembro de 1858.

 

SOBRE A OBRA

 

                            A versão original em alemão foi publicada em 1828 sob o título "Die Auswanderer nach Brasilien oder die Hütte am Gigitonhonha".

 

Antes do aparecimento da versão francesa da novela de Amelie Schoppe, a narrativa de viagem pedagógica baseada na imaginação do mundo colonial como mundo naturalizado (selvagem e preguiçoso), que, de acordo com Francis Marcoin (1999), experimenta as delícias da geografia através da errância romanesca, já havia mostado toda sua força aos jovens leitores europeus. Em 1839, Alexis Eymery escreve e publica uma coleção de livros - de pequeno formato e com muitas páginas - sobre aventuras de viagens a várias partes do mundo, incluindo o continente americano e, ao sul dele, o Brasil - Universo em miniatura ou as viagens do pequeno André sem sair de seu quarto. Utilizando a técnica do diálogo entre pai e filho, mais que adequada ao estilo confessional do romance de formação, esses livros apresentam quadros instrutivos e divertidos para guiar a infância no conhecimento das quatro partes do mundo: África, Ásia, América e Oceania.

 

     A passagem pelo Brasil inicia-se com o elogio ao jovem príncipe, herdeiro da Casa de Bragança. Em seguida, passeia-se pelo enorme bazar no qual se transformara o comércio do Rio de Janeiro realçado pela descrição de ruas estreitas por onde desfilam escravos carregando damas indolentes nas liteiras. Sobressaem as perucas e bijuterias. Mas o Brasil imaginado por André é, antes de tudo, um reino de pedras preciosas, rubis, diamantes e com muitos papagaios, situado entre a floresta da Tijuca e o distrito de Diamants. Aprenta-se, então, o vale de Gigitonhonha, metáfora de mais uma ilha deserta. No romance de Amelie, o vale é porto de salvação para uma família de Robinsons oitocentistas perdida no Brasil tropical. As margens férteis do rio Gigitonhonha é palco da trama imaginada no livro Os Emigrantes no Brasil.

 

     Com uma série de advertências aos jovens europeus sobre as ameaças e os perigos da partida para os países da América do Sul, a narradora tem como objetivo denunciar a experiência das várias famílias de colonos alemães em inicios do século XIX, oferecendo pistas das armadilhas nas quais se viam envolvidas logo no embarque. No porto de Amsterdã, de onde partiam os navios para o Rio de Janeiro, capitães inescrupulosos propunham a assinatura de contratos de compra e venda da força de trabalho dos emigarntes, em troca do pagamento da viagem. Entra em cena o drama da escravidão branca. Nesse romance, a ênfase das viagens recai sobre a aplicação de uma moral religiosa entre cristã e moderna, combinando os desígnios de Deus à preservação dos direitos individuais do cidadão. Por isso mesmo, a narradora ao tirar o máximo de proveito das advertências e conselhos acaba por instaurar uma pedagogia do medo.   

 

     Na tradição dos Robinsons que partem em família, Riemann é um fazendeiro viúvo e arruinado pela seca que assola seu país. Um dia, ouve trechos de uma canção que diz : o Brasil não é longe daqui. Toma, então, a decisão de partir da Alemanha em direção ao Brasil, levando sues filhos: Conrad, o mais velho, Anna, Marguerite e Wilhelm. Um deles, entretanto, deveria sacrificar-se pelos outros. Tamanha provação só poderia recair sobre Conrad, o primogênito, que vende-se ao capitão do navio. A travessia é marcada por infortúnios, fome e sede, algumas tempestades, além de doenças como o « mal do mar ».

 

     Ao chegar no Rio de Janeiro, uma cidade de ruas estreitas, cheia de Igrejas e magníficas casas (cenário senelhante ao descrito por Eymery), o proprietário do jovem alemão leva-o ao mercado de escravos negros. A família resta petrificada diante de tantos horrores. No mercado, a liberdade de Conrad é novamente vendida. Desta vez, o comprador é o inspetor do jardim imperial, um homem bastante rico. Conrad desaparece das vistas de seu pai e de seus irmãos. 

 

     Enquanto isso, Riemann segue para o Palácio do Governador, a fim de obter os papéis que o tornam proprietário de um terreno no vale de Gigitonhonha, a maior mina de diamantes do Brasil. Antes da viagem, ouve as advertências de um secretário alemão do Palácio: não comprar jamais diamantes dos negros que trabalham nas minas, são todos roubados e as penas para esse delito são bastante severas. Esses conselhos, fala a narradora, devem servir de regras de conduta, porque as lições de moral próprias ao gênero no qual foi classificado a novela de Amelie devem agir através dos personagens. A essa altura, o pai Riemann já se deu conta de que as promessas feitas aos emigrantes jamais se cumpriam.

 

     Ao chegar em Gigitonhonha, a família de heróis descreve a mesma trajetória de Robinson Crusoé, o personagem de Daniel Defoe. Riemann e seus filhos são europeus civilizados postos diante das aventuras da natureza: alimentam-se de legumes e frutas frescas oferecidas pela terra fértil, e de peixe do rio. Constróem uma cabana, fabricam os utensílios domésticos com a argila do lugar, modelam toscos instrumentos de trabalho necessários ao cultivo da terra e ousam até reunir troncos de árvores para fabricar uma canoa. Afinal, como os leitores poderiam se apropriar dos (des)caminhos postos à família Riemann? Responde a narradora: aprendendo com a experiência e com as situações de necessidade.

 

     Bem adiantada a narrativa, a família conhece Claus, um soldado alemão que servia no exército brasileiro. O novo amigo compra, por uma bagatela, o diamante de um negro a quem protegia. O escravo escondera (na verdade, roubara) a pedra de seus feitores num dia de trabalho nas minas. Claus, então, oferece o diamante a Riemann, que com ele poderia reaver a liberdade do filho. Apresenta-se à família um dilema moral, ao mesmo tempo que jogo educativo para o leitor: como aceitar a oferta de um roubo? 

 

     Riemann, então, parte para o Rio de Janeiro. Chegando lá, reencontra um funcionário alemão, M. Albrecht, que conhecera no Palácio do Governo. Após narrar suas heróicas robinsonadas, o emigrante pede ajuda ao amigo a fim de restituir o diamante à Coroa. Não foi difícil. Nessa época, o Brasil possuía uma jovem imperatriz alemã bastante apegada à sua pátria. Triunfa o caminho do bem. Comovida com a história da escravidão branca, a Princesa Isabel restitui a liberdade a Conrad. É feita a vontade de Deus e a família Riemann funda uma colônia alemã no Brasil.