Autor: Alonso de Vilhegas
Publicação: Em Lisboa : em casa de Simão Lopez, mercador de liuros
Edição: 1ª. ed. - 1598
Descr. Física: 4to. - 28,5x20x7cm
Idioma: Português
Paginação: 13 p.n.n. + 7 p.n.n.ind. + 58 f. + 429f. + 1.f.b.
Conservação: Bom; encadernação gasta necessita reparos; não possui folha de guarda (branca) inicial somente na parte da final (rasgada); lgumas poucas folhas reparadas com papel; lgumas primeiras e últimas folhas com bordas lateral e inferior aparadas dificultando um pouco a leitura; folhas 40, 56, 115, 215, 265 e 275 com pequena perda de papel; alguns pequenos picos de insetos que raramente afetam o texto; a perda de papel que começa na parte inferior das folhas 358 e vai aumentando até o final da obra, com perda de texto nestas áreas; faltam 13 folhas incluindo as duas últimas.
Encadernação: Enc. da época inteira em vellum
Ilustração: P. tít. ilustrada, 18 grav. xilogr. 14x9.5cm em sua maioria, diversas capitulares.
Valor: sob consulta
Ref. Ext.: Anselmo 819
Innocencio 7, 281
Notas: P. de tít. impressa em preto e vermelho
Por cima do pé de imprensa: "Com licença do Supremo Conselho da Mesa Geral da Sancta Inquisição;
e do Ordinario".
Por baixo do pé de imprensa: "Com Priuigelio Real".
Na p. de tít. grande. grav. xilogr. escudo real em cima e ao centro Jesus cristo rodeado por Santos
e anjos. assin. H.R.
OBS.: O tradutor da obra para o português foi SIMÃO LOPES, mercador de livros em Lisboa, nos últimos anos do século XVI, e dono de tipografia, como ele próprio mui expressamente se declara. Sobre sua naturalidade e datas de nascimento e óbitos não são encontrados registros. De uma carta dirigida ao autor Villegas, a qual vem no princípio do livro, e é escrita por Simão Lopes, se vê ser este o tradutor. Esta carta equivale a um documento de preço para autenticar e esclarecer certos pontos concernentes a sua bibliografia.
SOBRE O AUTOR
Escritor espanhol, nasceu em Toledo no ano de 1534 e faleceu na mesma cidade em 1615. Ainda era estudante estudante na Universidade de Toledo, quando escreveu o Selvagia um texto teatral em 1554, dedicado a Isabel de Barrionuevo, que imita o Celestinat, comédia que chamou a atenção da crítica da época, que reconheceu no autor e na obra uma contribuição renovadora para a literatura castelhana. Tamém é autor das seguintes obras Flos Sanctorum (1582), a vida de San Isidro (1592) e a vida de San Tirso (1595).
SOBRE A OBRA
O Flos Sanctorum é considerado a mais fecunda e útil antologia moral em língua espanhola, comparável a Legenda Áurea, livro do século XIII, de autoria do dominicano Jacobus de Voragine. O livro de Alonso de Villegas é composto de relatos sobre a Vida dos Santos, conforme o Breviário do Concílio, a Vida dos Santos do Velho Testamento, A Vida de Santos diversos com o de Varões Ilustres, Discursos sobre os Evangelhos de todo o ano e a Quinta parte, que aparece como integrante do volume intitulado Fructus Sanctorus, que é livro de exemplos, também de santos, com parte dedicada a Santa Maria, a mãe de Jesus. Segundo o que diz o autor, a segunda parte do Flos Sanctorum foi concluído no dia 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, de 1582, ano em que o Papa Gregório XIII mandava corrigir a contagem do tempo e estabelecia um novo calendário para o mundo cristão. Um calendário repleto de datas religiosas, consagradas ao contato catequético da Igreja com os fiéis e devotos que formavam a Cristandade, como correspondente do conceito de Humanidade. De tanto ser reeditado, com modificações feitas sem conhecimento do autor, Villegas mandou imprimir o seu próprio retrato nas futuras edições, salvaguardando a autenticidade dos textos.
Alonso de Villegas publicou, ainda, A Vida de Santo Isidoro de Madrid, mantendo o conceito de bom escritor, até que morreu, em 1603. Seu Flos Sanctorum se transformou numa seleta de exemplos, na voz dos predicadores, reforçando a oratória da catequese e sendo um mostruário moldado nas formas da Idade Média, validado pela disposição apostólica de jesuítas, oratorianos, carmelitas, franciscanos e outros missionários que povoaram o Novo Mundo, deixando cimentada uma base moral, ainda hoje entranhada na vida social dos povos novos, como o brasileiro.
O Flos Sanctorum integrava a estante primitiva do Brasil, livros que eram trazidos de Portugal e da Espanha, cujos títulos ficaram conhecidos com a Visitação da Bahia (que incluía Sergipe), de 1592, confiada ao licenciado, capelão, fidalgo de sua majestade, do seu desembargo e visitador apostólico Heitor Furtado de Mendonça. Um dos processos da Inquisição na Bahia/Sergipe relata que uma pessoa, usando instrumento cortante, perfurou propositadamente, páginas de textos e de gravuras do Flos Sanctorum. Nos séculos seguintes, XVII, XVIII e XIX o livro sobre os santos circulava entre os colonos brasileiros, juntamente com outros títulos, como a reproduzir, em certa medida, a estante do fidalgo personagem de Cervantes.
Muitas curiosidades, recolhidas na tradição européia, estão no Flos Sanctorum, como o próprio relato do autor sobre a mudança do calendário, as idades do mundo e as misericórdias, dentre muitas outras narrativas exemplares, organizadas para os fins expansionistas do Cristianismo, notadamente do Catolicismo romano. Parece haver, contudo, pouca conciliação, por exemplo, entre a sujeição ao rei e as obras de misericórdia, que são o passaporte da vida. Alonso de Villega consolida e sustenta a idéia dominante, desde a Idade Média, de que todos os inferiores e súditos devem honrar em muito os seus reis, como ensinou São Pedro, que todos obedeçam e se sujeitem, como queria São Paulo reforçando que os que resistiam aos reis, resistiam a Deus, ou que Deus dá cetro e coroa e quer que todos obedeçam e estimem os Reis, como está nos Provérbios, de Salomão, ou, ainda, que além de obediência e serviços os súditos devem amar aos Reis.
Os Reis e Imperadores foram, por muito tempo, encarnações de Deus, representações de todas as virtudes, da sabedoria acumulada no tempo, e da força que as guerras e disputas familiares tornavam possível. As leis, os códigos, juntamente com os costumes, que em muitos países são suas fontes, também sujeitavam as populações à autoridade divina dos soberanos.
Alonso de Villegas se valeu desse repertório vigente antes e no seu tempo, para tornar o seu livro Flos Sanctorum numa fonte exemplar, da qual vicejaram os valores que serviram de balizamento da expansão ibérica pela terra, muito especialmente junto aos povos do Novo Mundo, que surpreenderam os colonizadores com suas existências, línguas e culturas. A Coroa de Portugal, como a Coroa da Espanha, também dava todo crédito ao conhecimento de salvação, que permeou as relações nas terras descobertas e conquistadas.
As biografias de santos, monges, beatos, eremitas, doutores da Igreja se multiplicaram, ao lado de outros livros difusores do ideal da vida santa, frisando os exemplos, reforçados pela censura e pelo controle que as devassas, denúncias, e ações inquisitorias tornavam públicas.
O combate ao protestantismo, ao judaísmo e aos agnósticos em geral convivia com as prédicas nos púlpitos das igrejas e capelas, ou no magistério moral que se estendia nos contatos dos padres e frades com os senhores de terra, fazendeiros de gado ou produtores de cana e de açúcar, espalhados pela imensidão das terras. Supunha-se, naquele tempo, que a natureza da terra era equivalente à idéia do paraíso, e que nela poderia se desenvolver uma sociedade de homens puros e sem pecados.
Sujeitos à fé, e em conseqüência a Deus e a toda a linhagem religiosa, homens e mulheres eram também sujeitos ao Rei, mesmo a distância entre eles limitasse as relações entre as criaturas e seu criador. E assim como havia toda uma malha de devoção, a partir dos Oragos e das festas que eles ensejavam, havia uma fronteira de leis, modos, costumes, aplainando as manifestações livres.
Neste sentido há uma literatura de muitos títulos, colocada à disposição dos predicadores, disseminada como alimento de fé. A colonização das três américas decorreu, assim, do projeto cristianizador irradiado a partir da península ibérica, ainda que ela alimentasse divergências políticas. No plano espiritual propriamente dito tanto Espanha, quanto Portugal assumiram posições singulares na história, a partir das descobertas marítimas.
No Flos Sanctorum estão referenciadas as 14 obras de misericórdia, 7 da alma e 7 do corpo, precedidas de situações reprováveis, e que deveriam marcar a vida cristã. Da alma são reprováveis: a Ignorância, a falta de Prudência, o Pecado, ser a outro Oneroso, ou Pesado, a Tristeza ou o Desconsolo, a Ofensa ao próximo e a Dívida para com Deus, sem ter como pagar.
O remédio estava nas Obras de Misericórdia, que são: Ensinar a quem não sabe, dar Conselho, Corrigir o que erra, Sentir a Dor do próximo, Consolar o triste, Perdoar a injúria e Rogar pelos vivos e pelos defuntos. No plano do corpo não Ter o que Comer, nem o que Beber, nem o que Vestir, nem onde Recolher-se, não ter Saúde, nem Liberdade, nem Sepultura. Para tanto o remédio eram as Obras de Misericórdia, como Dar de Comer aos famintos, Dar de Beber aos sedentos, Vestir o nu, Dar Pousada aos peregrinos, Visitar os enfermos, Redimir os cativos e Enterrar os mortos.
Alonso de Villegas recorre a diversos autores, desde os evangelistas, para justificar o enunciado das Obras de Misericórdia, ditadas pelas situações inferiores (hoje seriam injustas?). Tiago dizia que a fé, sem obras, é morta, São Paulo proclamava a apresentação de todos os viventes ante o Tribunal de Cristo, para que cada um leve seu prêmio e paga conforme suas obras, para São João, no Apocalipse, as obras seguem na outra vida aos que desta vão lá.
Acrescenta o autor: O mesmo que as Escrituras Sagradas diz, disseram muitos doutores sagrados, como São Jerônimo, São Basílio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo. E o mesmo, continua, declarou o Santo Concílio Tridentino, de maneira que são necessárias obras, e obras boas, deste jaez são as que comumente se chamam de misericórdias.
O Flos Santorum trata das idades do mundo, desde Adão até o nascimento de Jesus Cristo. Em cada uma delas predomina uma visão do mundo, um código disciplinar, um conjunto de pecados que as nações cristãs transformaram, nas jornadas do tempo, em leis e em condutas éticas. A radicalização religiosa impôs, muitas vezes e por muito tempo, confrontos que ainda hoje repercutem na cultura dos povos, como as lutas entre cristãos e mouros, durante séculos, que tiveram na intolerância o oposto das misericórdias pregadas pelos Concílios e pelos doutores e exegetas da Igreja. Misericórdias que combinariam com as virtudes cardeais e teologais, umas a Justiça, a Prudência, a Fortaleza e a Temperança, outras popularizadas como Fé, Esperança e Caridade, mas que não harmonizariam as doutrinas e as práticas entre os devotos.
Alonso Villegas divide a história humana em seis idades: a 1ª, que começa com Adão e chega até Noé; a 2ª que começa com Noé, após o dilúvio; a 3º que começa com Abraão; a 4ª que começa no tempo de Moisés; a 5º que começa no quarto ano do reinado de Salomão e a 6ª que começa pouco depois da morte de Tobias e dura até o advento em carne (nascimento) do filho de Deus, aos olhos do mundo. Cada ponta dessa cronologia está fortalecida pelas circunstâncias narradas no Velho Testamento, que põe nítidas as regras fundantes da moral cristã, disseminadas com a vida, a paixão, a morte de Jesus e a saga dos seus apóstolos e seguidores, em mais de dois milênios de história. A linguagem atualizada de hoje, portanto, não anula as bases religiosas das quais o Flos Sanctorum é uma tentativa de propaganda exemplar, sendo mesmo escrito para cumprir com esse papel pedagógico, que precedeu a leitura bíblica.
Como se trata de um livro em vários volumes, escrito separadamente, o Flos Sanctorum faz a tentativa de intermediar o Velho e o Novo Testamento, recuperando biografias perdidas, de santos considerados menores na hierarquia dos créditos envoltos na fé. No volume considerado publicado em Barcelona em 1775, composto de um ano cristão de celebrações, a vida de Jesus e dois apêndices, um com os santos espanhois e o outro com biografias de santos marginalizados, considerados extravagantes. Nesta parte, Villegas estabelece 12 capelas, que é o anuário devocional, e põe lá as biografias, bem fundamentadas, dos seus santos, sem a preocupação de estabelecer dias consagrados, de festa.
As 12 capelas são as seguintes: Capela da Santa Paz, composta pela Santa Maria Egipciaca, Santa Catarina de Siena, os 7 Dorminhocos (tradução livre do espanhol durmientes), e Santa Brígida; Capela da Divina Graça, com São Longinos, São Justino, São Epifânio e São João Damasceno; Capela do Santo Sepulcro, composta por Santo Acácio, Santa Eugênia, Sãnto Irineu e São Romão; Capela da Divina Palavra, com Santo Antonino, São Patrício, Santo Ananias e São Cornélio; Capela do Sono, formada por São Tirso, Santos Julião e Basilisa e São Malco; Capela do Amor Divino, com Santa Teodora, São Martiniano e Santa Pelagia; Capela de Nossa Senhora da Solidão, com São Simeão Estilita, Santa Eufrásia e Santos Barlaam e Josafá; Capela do Santo Mistério com Santa Teodora (outra) São Ginês e São Ponce; Capela da Anunciação, dos santos São Nicásio, Crispim e Crispiniano, São Cirilo Jerosilimitano; Capela dos Anjos, com São Bruno, Santa Isabel da Hungria e São Bernardino; Capela da Coversão, formada por Santo Antonino (outro), Santo Inácio de Loiola, Santo Eusébio; e a Capela da Divina Glória, com São Simão de Rocha, Santa Tereza e Santo Isidro.
O que pretendia Alonso de Villegas era compor uma mitologia cristã, reconhecendo, contudo, que as vidas pobres e tristes que ele narrou não conduziram à realização do seu propósito. O caráter exemplar do Flos Sanctorum prevaleceu, rompeu o tempo e pode, ainda hoje, servir de parâmetro comparativo, como fonte moral da Igreja, em sua história de antes e de depois de Jesus, uma história de santos, mártires, beatos, eremitas, homens afastados do convívio familiar e social, atraídos pelo ideal da vida santa.
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